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Convulsão Febril: O Que Fazer e Quando Ir ao Pronto-Socorro?

Se a criança está convulsionando neste momento, não tente medir a temperatura nem dar remédio pela boca. Coloque-a em um local seguro, afaste objetos que possam machucá-la, não segure braços e pernas à força, não coloque dedo, colher, pano ou qualquer objeto na boca e marque o horário em que a crise começou. Se a convulsão chegar a 5 minutos, se houver dificuldade para respirar, coloração azulada, outra crise sem recuperação adequada ou qualquer situação que pareça uma emergência, ligue para o SAMU 192.

Uma convulsão com febre é uma das cenas mais assustadoras que uma família pode presenciar. A criança pode ficar rígida, perder a resposta ao chamado, apresentar abalos nos braços e nas pernas, desviar os olhos e, por alguns instantes, parecer que não está respirando do jeito habitual. Mesmo quando tudo dura pouco, a percepção de quem está olhando costuma ser de que passaram muitos minutos.

Na maioria das crianças que realmente têm uma convulsão febril simples, a recuperação é boa e não há dano neurológico permanente. Mas esse diagnóstico não deve ser feito apenas porque havia febre. A primeira crise precisa de avaliação médica, porque o profissional deve confirmar que o episódio é compatível com convulsão febril, procurar a causa da febre e excluir situações diferentes — algumas delas urgentes.

Este guia foi organizado na mesma ordem em que a dúvida costuma acontecer na vida real: primeiro, o que fazer enquanto a crise está ocorrendo; depois, o que observar quando ela termina; só então, como entender o diagnóstico, os sinais de alerta, os exames e o risco de uma nova crise.

A decisão mais importante agora

Uma crise que continua por 5 minutos ou mais precisa de atendimento de emergência. Esse limite é diferente dos 15 minutos usados em algumas classificações médicas para diferenciar convulsão febril simples de complexa. Não espere 15 minutos para pedir ajuda.

Se a crise está acontecendo agora, o relógio importa mais que o termômetro

Quando a criança começa a se debater ou fica rígida e sem responder, o impulso costuma ser tentar “fazê-la voltar”: chamar alto, sacudir, segurar os movimentos, abrir a boca ou correr para buscar o antitérmico. Essas atitudes não interrompem uma convulsão e algumas podem causar lesões.

As orientações de primeiros socorros da American Academy of Pediatrics, de serviços pediátricos de referência e do Ministério da Saúde apontam para uma conduta mais simples: proteger a criança, observar a respiração e contar o tempo.

  1. Leve a criança para uma superfície segura. Se for possível sem carregá-la por uma distância desnecessária, deixe-a no chão ou em uma cama baixa, afastada de quinas, móveis, brinquedos duros e objetos que possam ferir.
  2. Não tente parar os movimentos. Não prenda braços e pernas e não use o peso do corpo para imobilizar. O objetivo é impedir que ela bata em algo, e não impedir a convulsão pela força.
  3. Mantenha a boca livre. Não coloque colher, dedo, pano, medicamento, água ou alimento na boca. A criança não “engole a língua”. Forçar a boca pode quebrar dentes, provocar ferimentos e dificultar a respiração.
  4. Facilite a drenagem de saliva ou vômito. Se conseguir fazer isso sem forçar o pescoço ou o corpo, vire a cabeça para o lado. Quando os abalos terminarem e a criança estiver respirando, colocá-la de lado é uma posição útil durante a recuperação.
  5. Marque a hora. Abra o cronômetro do celular ou olhe para o relógio. A diferença entre “pareceu muito tempo” e “durou 90 segundos” muda a avaliação médica. Se houver outro adulto, ele pode anotar o início enquanto você permanece com a criança.
  6. Observe respiração e cor. Mudanças breves podem acontecer durante uma convulsão, mas dificuldade respiratória persistente, lábios ou pele azulados, engasgo importante ou ausência de recuperação exigem ação imediata.
Chegou a 5 minutos e a crise não parou? Considere uma emergência. No Brasil, o Ministério da Saúde inclui crises convulsivas entre as situações para acionar o SAMU 192. Se a criança continua convulsionando, não é uma boa ideia colocá-la no carro e dirigir sozinho enquanto tenta observá-la.

Se você estiver sozinho, priorize a segurança da criança e a chamada de emergência. Não deixe a criança convulsionando sem supervisão para procurar termômetro, documento, remédio ou uma roupa diferente. Esses itens podem esperar.

Também não tente baixar a febre durante os abalos com banho frio, compressas geladas ou álcool na pele. Além de não tratar a convulsão, essas medidas podem aumentar desconforto e calafrios. O cuidado com a febre vem depois, quando a criança estiver consciente o suficiente para engolir com segurança e quando a situação urgente tiver sido avaliada.

A crise parou: o que observar antes de pensar em voltar à rotina

Depois de uma convulsão, muitas crianças ficam sonolentas, cansadas, chorosas ou mais agarradas ao cuidador por algum tempo. Esse período de recuperação é chamado de estado pós-ictal. O fato de a criança dormir ou parecer exausta logo depois não significa, sozinho, que houve lesão cerebral.

O que importa é a evolução. A criança começa a respirar normalmente? A cor da pele volta ao habitual? Ela passa a reconhecer você, mover braços e pernas dos dois lados e reagir de forma progressivamente mais parecida com o seu normal? Uma recuperação clara é tranquilizadora. Uma criança que permanece muito alterada, não desperta adequadamente ou apresenta fraqueza de um lado precisa de avaliação urgente.

Logo depois da crise: mantenha a criança de lado se ainda estiver sonolenta, observe a respiração e não ofereça água, leite, comida ou medicamento pela boca enquanto ela não estiver plenamente acordada e capaz de engolir normalmente.

Quando estiver segura, anote o que aconteceu. O médico geralmente consegue aproveitar muito mais uma descrição objetiva do que frases como “foi uma convulsão muito forte”. Tente lembrar a hora de início, a duração aproximada, se os dois lados do corpo se mexiam ou apenas um, se os olhos desviaram para um lado, se houve mudança de cor, quanto tempo levou para a criança voltar a interagir e quais sintomas da infecção já existiam antes.

Se outro adulto estiver presente e a segurança já estiver garantida, um vídeo curto do episódio pode ajudar o profissional a diferenciar convulsão de alguns movimentos que se parecem com ela. Filmar nunca deve atrasar o cronômetro, o posicionamento seguro ou a chamada para o 192.

Na primeira crise convulsiva associada à febre, mesmo que tudo pare em um ou dois minutos e a criança se recupere bem, é prudente que ela seja avaliada por um médico no mesmo dia. A razão não é presumir que algo grave aconteceu. É confirmar que o evento realmente se encaixa em convulsão febril e descobrir por que a criança está com febre.

Essa avaliação ganha urgência ainda maior se a criança não voltar ao comportamento habitual, se tiver outra crise, se a convulsão apresentar características focais — por exemplo, apenas um lado do corpo — ou se houver sinais de uma infecção importante.

Quando é realmente convulsão febril — e quando o nome não deve ser usado

“Convulsão febril” não significa simplesmente “qualquer convulsão em uma criança que estava quente”. A definição clínica inclui uma convulsão associada a um quadro febril em uma criança pequena, sem evidência de infecção do sistema nervoso central, sem uma alteração metabólica que explique a crise e sem história anterior de crises sem febre que mude o diagnóstico.

A faixa etária mais usada em orientações da American Academy of Pediatrics é de 6 meses a 5 anos. Algumas diretrizes pediátricas estendem a faixa prática até perto dos 6 anos. Em qualquer caso, uma crise convulsiva fora da idade típica exige cautela: não deve ser rotulada em casa como “só convulsão febril”.

É justamente por isso que um episódio em um bebê muito pequeno muda completamente a conduta. Febre em recém-nascido já exige avaliação rápida por si só; movimentos compatíveis com convulsão no período neonatal são uma situação de emergência e não devem ser tratados como a forma típica de convulsão febril da criança maior.

A febre precisa estar muito alta para causar convulsão?

Não. A convulsão febril é mais comum em episódios com temperaturas mais elevadas, mas pode acontecer com febre mais baixa e até quando a temperatura já está começando a cair. Por isso, a ideia de que “só convulsiona se passar de 39 °C” não é segura.

Também não é possível garantir que a convulsão ocorreu porque a febre “subiu rápido demais”. Há crianças suscetíveis que convulsionam cedo no quadro, às vezes antes mesmo de a família perceber que estavam febris. O termômetro ajuda a avaliar a doença, mas não funciona como um medidor direto do risco de convulsão.

Calafrio e tremor com febre são a mesma coisa?

Não necessariamente. Durante um calafrio, a criança pode tremer bastante, bater os dentes e parecer desconfortável, mas em geral continua consciente, reconhece quem está perto e responde ao chamado. Numa convulsão, pode haver perda de contato, rigidez, movimentos repetitivos involuntários, desvio dos olhos e ausência de resposta.

Essa distinção nem sempre é simples para quem presencia pela primeira vez. Desmaios, tremores intensos, movimentos durante o sono e algumas alterações de comportamento também podem confundir. Se existe dúvida real sobre o que aconteceu, especialmente no primeiro episódio, o caminho mais seguro é descrever o evento e procurar avaliação em vez de tentar fechar o diagnóstico por vídeo na internet.

Uma informação que reduz muita culpa: a convulsão febril não acontece porque a mãe ou o pai “demorou para perceber a febre”. Em muitas crises, não havia uma janela previsível em que um antitérmico garantiria que aquilo não acontecesse.

O que muda entre uma convulsão febril simples e uma complexa

Depois que o susto passa, é comum ouvir no pronto atendimento as expressões “simples” e “complexa”. Esses nomes não servem para dizer que uma foi “de verdade” e a outra não. Eles ajudam a classificar características da crise que influenciam a necessidade de investigação e observação.

Característica Convulsão febril simples Convulsão febril complexa ou atípica
Movimentos Geralmente envolvem o corpo de forma generalizada. Podem ter sinais focais, como predomínio de um lado ou de uma parte do corpo.
Duração Menos de 15 minutos na classificação clínica. 15 minutos ou mais, conforme critérios usados em diretrizes.
Repetição Não volta a ocorrer durante o mesmo episódio febril, conforme o critério adotado. Pode se repetir na mesma doença febril ou em curto intervalo.
Recuperação A criança retorna progressivamente ao estado neurológico habitual. Alteração prolongada da consciência, fraqueza ou recuperação incompleta aumenta a preocupação.
Investigação Quando a criança está bem e o quadro é típico, exames neurológicos extensos não costumam ser automáticos. A avaliação é individualizada e pode exigir exames dirigidos ao que o médico encontrar.

Há pequenas diferenças entre protocolos sobre detalhes da definição, especialmente sobre o intervalo considerado para recorrência. Para a família, o ponto mais útil não é decorar a classificação. É reconhecer que crise focal, prolongada, repetida ou acompanhada de recuperação anormal merece avaliação mais cuidadosa.

Cinco minutos e quinze minutos respondem a perguntas diferentes

5 minutos: uma crise que ainda está acontecendo já entra numa faixa em que o tratamento de emergência deve ser acionado. 15 minutos: é um limite usado em classificações clínicas de convulsão febril complexa. Esperar a crise completar 15 minutos antes de pedir ajuda seria interpretar a tabela de forma perigosa.

Quando ir ao pronto-socorro sem esperar para ver se melhora

Uma pergunta muito pesquisada é: “se a criança teve convulsão com febre e já parou, preciso levar ao hospital?”. Não existe uma resposta única para todos os episódios, porque idade, duração, recuperação e causa da febre mudam o risco. Mas há situações em que a espera em casa não é adequada.

  • a convulsão continua por 5 minutos ou mais;
  • a criança apresenta dificuldade para respirar, coloração azulada persistente ou não recupera a respiração habitual depois da crise;
  • uma nova convulsão começa antes de a criança se recuperar adequadamente, ou ocorrem crises repetidas;
  • os movimentos atingem principalmente um lado do corpo, uma face, um braço ou uma perna, ou há desvio persistente dos olhos para um lado;
  • a criança permanece muito sonolenta, confusa ou sem voltar ao seu estado neurológico habitual por tempo prolongado — especialmente quando a alteração se aproxima ou ultrapassa uma hora;
  • surge fraqueza de um lado, dificuldade nova para andar, falar ou usar uma parte do corpo depois da crise;
  • há rigidez importante no pescoço, fontanela abaulada no bebê, manchas arroxeadas que não desaparecem à pressão, piora rápida do estado geral ou outros sinais compatíveis com infecção grave;
  • há vômitos persistentes, desidratação importante, dificuldade extrema para acordar ou comportamento muito diferente do habitual;
  • a criança tem menos de 6 meses, está fora da faixa etária típica ou o episódio não se parece com uma convulsão febril já avaliada anteriormente;
  • a crise aconteceu após pancada na cabeça, possível intoxicação, afogamento, choque elétrico ou outra situação que oferece uma explicação diferente da febre;
  • é a primeira crise convulsiva e você não consegue obter avaliação médica rapidamente, mesmo que ela tenha sido breve;
  • há qualquer condição neurológica, metabólica, imunológica ou outra doença importante para a qual a equipe que acompanha a criança tenha fornecido um plano específico de urgência.

O Ministério da Saúde orienta que o SAMU 192 pode ser acionado em crises convulsivas. Na prática, se a criança ainda está convulsionando, se a crise chegou a 5 minutos, se existe comprometimento respiratório, se ela não recupera a consciência adequadamente ou se o transporte não pode ser feito com segurança, ligar 192 é mais apropriado do que tentar dirigir enquanto a emergência continua.

Febre + convulsão pode ser meningite?

Pode existir uma infecção do cérebro ou das meninges em uma criança com febre e convulsão, e é exatamente por isso que “teve febre” não fecha o diagnóstico de convulsão febril. Por definição, a convulsão febril típica ocorre sem infecção do sistema nervoso central.

Rigidez de nuca, alteração persistente de consciência, fontanela abaulada, prostração intensa, manchas arroxeadas que não clareiam à pressão, fotofobia em criança maior e outros sinais clínicos podem aumentar a suspeita, mas meningite nem sempre apresenta um roteiro completo de sintomas. Uma criança muito doente ou com recuperação anormal deve ser examinada, mesmo que você não consiga identificar um “sinal clássico”.

E se a convulsão aconteceu depois de bater a cabeça?

Nesse cenário, não atribua o episódio automaticamente à febre. Convulsão após trauma craniano é um sinal de alerta e precisa ser avaliada dentro do contexto do acidente. O blog tem um guia específico sobre quando levar a criança ao pronto-socorro depois de bater a cabeça, porque mecanismo da queda, estado de consciência, vômitos e outros sinais mudam a conduta.

O mesmo raciocínio vale para possível intoxicação. Se existe a chance de a criança ter ingerido medicamento, produto de limpeza, substância tóxica ou outra coisa inadequada, informe isso imediatamente ao serviço de emergência. O fato de também haver febre não torna a intoxicação menos importante.

O que o médico tenta descobrir depois da crise

No pronto atendimento, a pergunta principal não é apenas “a convulsão acabou?”. O profissional precisa entender que tipo de evento aconteceu e qual é a causa da febre.

Por isso, é provável que pergunte a idade da criança, duração da crise, se os movimentos eram dos dois lados, se houve outra crise no mesmo dia, quanto tempo levou para voltar ao normal, qual foi a temperatura medida e que sintomas existiam antes. Histórico de desenvolvimento, convulsões anteriores, crises sem febre, medicamentos, vacinação, doenças neurológicas e história familiar também podem entrar na avaliação.

O exame procura tanto a origem da febre quanto sinais que mudam o risco. Ouvido, garganta, pulmões, pele, hidratação e, em algumas situações, urina podem fornecer pistas. Ao mesmo tempo, o profissional observa estado de consciência, força, coordenação, rigidez de nuca, fontanela em bebês e outros aspectos do exame neurológico.

Infecções virais comuns estão entre as causas frequentes de febre nessa idade, mas não são as únicas. Otite, infecção urinária, pneumonia e outras infecções podem estar presentes. Algumas doenças virais também produzem sinais característicos além da febre. Por exemplo, quando aparecem feridas na boca e lesões em mãos e pés, vale conhecer o guia sobre doença mão-pé-boca, sintomas e duração; mas, se houve convulsão, essa informação não substitui a avaliação do episódio.

A forma como a criança se recupera também pesa muito. Uma criança que teve uma crise breve, generalizada, voltou completamente ao normal e apresenta um foco simples de infecção está em um cenário muito diferente de outra que permanece confusa, teve movimentos de um lado do corpo ou apresenta sinais de meningite.

Tomografia, EEG e punção lombar: por que nem sempre são necessários

Depois de ver uma convulsão, é compreensível que a família queira “fazer todos os exames para ter certeza”. Porém, em uma convulsão febril simples típica, numa criança que se recuperou bem e está clinicamente estável, diretrizes pediátricas não recomendam uma bateria automática de exames neurológicos apenas por causa da crise.

Tomografia de crânio usa radiação e não é um exame de rotina para toda convulsão febril simples. Ela pode ser necessária em situações específicas, como determinados achados neurológicos, trauma, crise complexa ou outra suspeita que o médico identifique. O benefício precisa superar os riscos e a possibilidade de um exame que não mude a conduta.

EEG, o eletroencefalograma, também não costuma ser necessário de rotina depois de uma convulsão febril simples. Ele pode entrar na investigação quando existem características atípicas, dúvida diagnóstica, crises sem febre, alterações neurológicas ou outros elementos que mudem o contexto. Um exame solicitado porque existe uma pergunta clínica concreta é diferente de fazê-lo apenas para “ter certeza de que nunca mais acontecerá”.

Punção lombar não é sinônimo de convulsão febril. O exame pode ser indicado quando existe suspeita de meningite ou outra infecção do sistema nervoso central, levando em conta idade, sinais clínicos, vacinação, uso prévio de antibióticos e demais circunstâncias. Decidir fazer ou não fazer esse exame exige avaliação presencial.

Exames de sangue, glicemia, eletrólitos e urina também são escolhidos conforme o quadro. Uma apresentação atípica, criança muito doente, desidratação, suspeita metabólica ou outra condição pode justificar investigação dirigida. O objetivo é evitar dois extremos: deixar de examinar uma criança que precisa e submeter uma criança de baixo risco a procedimentos dolorosos ou radiação sem benefício claro.

O exame “certo” não é o maior número de exames. É aquele que responde a uma dúvida clínica real. Em uma convulsão febril simples, muitas vezes a parte mais importante da consulta é confirmar a recuperação neurológica e encontrar a causa da febre.

Antitérmico evita outra convulsão? A resposta costuma surpreender

Depois da primeira crise, muitos pais passam a tentar impedir que a temperatura suba um único décimo. É compreensível: se a convulsão aconteceu com febre, parece lógico imaginar que manter o termômetro baixo impediria a repetição. As evidências disponíveis não sustentam essa estratégia.

Um documento científico da Sociedade Brasileira de Pediatria publicado em 2025 revisou estudos sobre uso profilático de antitérmicos em crianças com convulsão febril anterior e concluiu que usar antitérmico preventivamente não reduz de forma confiável a recorrência da convulsão febril. Diretrizes internacionais chegam à mesma conclusão.

Isso não significa que antitérmicos “não servem”. Eles podem ser usados para aliviar dor e desconforto quando apropriados para a idade e para a condição da criança. O que muda é o objetivo: tratar a criança que está desconfortável, e não perseguir um número no termômetro como se ele garantisse proteção contra convulsões.

Ideia que parece lógica

“Se eu der antitérmico antes da febre subir, consigo impedir a convulsão.”

O que as evidências mostram

Antitérmicos podem melhorar conforto, mas não são uma prevenção confiável de novas convulsões febris.

Outro cuidado importante é não alternar medicamentos por conta própria apenas para “não deixar a febre voltar”. A SBP alerta que esquemas alternados podem confundir cuidadores e aumentar o risco de erro de dose e superdosagem. Se a criança precisa de antitérmico, use o produto adequado à idade, na concentração correta e na dose orientada para o peso atual.

Durante uma convulsão ou enquanto a criança ainda não recuperou a capacidade de engolir normalmente, não dê nenhum medicamento pela boca. Se o pediatra prescreveu previamente uma medicação de resgate para crises prolongadas, ela deve ser usada exatamente conforme o plano ensinado à família. Não copie dose de outra criança e não use medicamentos anticonvulsivantes emprestados.

Banho frio, gelo e fricção com álcool também não previnem convulsão febril. Métodos físicos intensos podem aumentar calafrios e desconforto. Depois da crise e com a criança acordada, roupas confortáveis, ambiente adequado, líquidos conforme tolerância e o tratamento da causa da febre fazem mais sentido do que uma batalha para normalizar o termômetro a qualquer custo.

A convulsão apareceu depois de uma vacina. Isso muda as próximas doses?

Febre pode ocorrer depois de algumas vacinas, e convulsões febris podem acontecer nesse contexto, mas são eventos incomuns. O CDC, em página atualizada em setembro de 2026, mantém que os benefícios da vacinação infantil superam esse risco e não recomenda mudanças gerais no calendário por causa dos dados disponíveis.

Para uma criança específica que teve uma convulsão após vacinação, o pediatra deve revisar qual vacina foi aplicada, o intervalo entre a dose e os sintomas, a idade, o tipo de crise e o histórico da criança. Não suspenda futuras vacinas por conta própria nem conclua que a vacina causou a crise apenas porque os eventos aconteceram em sequência. Associação temporal e causa não são a mesma coisa.

Também é importante lembrar o outro lado: doenças que as vacinas ajudam a prevenir podem causar febre e, consequentemente, convulsões febris. A decisão sobre futuras doses deve equilibrar riscos e benefícios de maneira individual, dentro do calendário recomendado para a criança.

Pode acontecer de novo? E isso quer dizer epilepsia?

Sim, uma convulsão febril pode se repetir em outro episódio de febre. Dados atuais do CDC e de serviços pediátricos de referência apontam que aproximadamente uma em cada três crianças que teve uma convulsão febril terá outra durante a infância.

A chance de recorrência não é igual para todos. Crianças menores no primeiro episódio e aquelas com história familiar de convulsões febris tendem a apresentar recorrência com mais frequência. Mesmo assim, “pode acontecer de novo” não significa “vai acontecer em toda febre”. Muitas crianças nunca terão uma segunda crise.

Também é importante separar convulsão febril de epilepsia. Epilepsia envolve predisposição a crises epilépticas não provocadas por febre ou por uma causa aguda específica. Ter uma convulsão febril simples não significa que a criança tenha epilepsia, e a grande maioria das crianças com esse diagnóstico não desenvolverá epilepsia.

Alguns fatores — como crises febris complexas, determinadas alterações do desenvolvimento, história familiar de epilepsia e outros achados clínicos — podem mudar a avaliação de risco. Por isso, uma resposta responsável não transforma uma porcentagem geral em previsão individual. Se o episódio foi atípico, o pediatra pode indicar seguimento com neurologia pediátrica.

Para convulsões febris simples, medicamentos anticonvulsivantes de uso contínuo não são prescritos rotineiramente apenas para impedir recorrência. Como a maioria dos episódios é breve e tem bom prognóstico, os possíveis efeitos adversos de uma prevenção medicamentosa contínua podem superar o benefício.

Isso é diferente de uma medicação de resgate. Em crianças selecionadas, principalmente quando já houve crise prolongada ou existe um risco específico, o médico pode ensinar a família a usar um medicamento de resgate se uma nova convulsão ultrapassar determinado tempo. Esse plano precisa ser individualizado, com produto, via, dose e momento de uso claramente definidos.

Um plano doméstico para a próxima febre — sem transformar a casa em pronto-socorro

Depois de uma convulsão febril, algumas famílias passam a dormir com termômetro na mão e acordar a criança várias vezes para medir a temperatura. Esse estado de vigilância permanente não previne todas as recorrências e pode transformar cada resfriado em uma emergência emocional.

É mais útil ter um plano curto, escrito e compartilhado com quem realmente cuida da criança. Ele não precisa prever todos os cenários; precisa impedir os erros que mais atrapalham quando todo mundo está assustado.

  • Todos os cuidadores devem saber o básico da crise: proteger contra trauma, não conter os movimentos, não colocar nada na boca e marcar o tempo.
  • Deixe o 192 fácil de encontrar. Não dependa de procurar o número no momento da emergência.
  • Mantenha o plano de medicamentos atualizado. Se o pediatra orientou antitérmico, anote nome, concentração, dose e intervalo corretos para o peso atual. Não use uma anotação antiga depois de meses de crescimento.
  • Se existe medicação de resgate prescrita, treine quem cuida da criança. Avós, escola ou creche precisam saber quando usar, como usar e quando chamar emergência. A prescrição de uma criança não serve para outra.
  • Depois de uma nova crise, registre duração e características. Isso ajuda muito mais o médico do que tentar lembrar detalhes horas depois.
  • Não esconda o histórico da escola ou da creche por medo de estigma. Um plano simples de primeiros socorros pode evitar que alguém coloque objetos na boca, segure a criança à força ou perca tempo tentando “acordá-la”.
  • Procure orientação individual se o episódio anterior foi complexo. A conduta para uma criança que teve uma crise breve e generalizada pode ser diferente daquela que já apresentou uma crise prolongada, focal ou repetida.

Ter um plano também ajuda a distinguir duas responsabilidades diferentes. A primeira é cuidar da doença que está causando a febre: hidratação, conforto, avaliação de sintomas e tratamento indicado. A segunda é saber agir se ocorrer outra convulsão. Misturar as duas coisas leva ao erro de achar que “baixar a febre a qualquer custo” é a única forma de manter a criança segura.

Se a criança tem uma doença neurológica conhecida, síndrome genética, atraso do desenvolvimento importante, crise prévia sem febre ou já é acompanhada por neurologista, o plano precisa ser individual. Este artigo descreve a lógica geral das convulsões febris; ele não substitui um plano de emergência fornecido pela equipe que conhece o caso.

Se você guardar apenas uma sequência: durante a crise, dê espaço seguro, mantenha a boca vazia, não force os movimentos e marque o tempo. Depois, observe respiração e recuperação. Crise em andamento por 5 minutos é emergência. A primeira convulsão com febre merece avaliação médica, mesmo quando foi curta e a criança parece bem logo depois.

Convulsão febril assusta porque parece, à primeira vista, um sinal de que algo irreversível está acontecendo. Na maioria das formas simples, não é isso que ocorre. O melhor equilíbrio é não minimizar uma primeira crise nem transformar todas as febres futuras em pânico: reconhecer o que é urgente, avaliar a causa da febre e saber exatamente o que fazer se o episódio se repetir.

Aviso de saúde

Este conteúdo tem finalidade informativa e educativa e não substitui avaliação, diagnóstico, prescrição ou atendimento de emergência realizado por profissional de saúde.

Se a criança estiver convulsionando agora, se a crise durar 5 minutos ou mais, houver dificuldade para respirar, coloração azulada, crises repetidas, recuperação anormal, rigidez de nuca, alteração importante de consciência, fraqueza de um lado ou qualquer situação que pareça uma emergência, procure atendimento imediatamente ou acione o SAMU 192.

Leia também o Aviso de Saúde completo do Entre a Mãe e a Mulher.

Uma orientação útil para quem cuida da criança

Em uma convulsão, saber antes o que não fazer pode evitar erros no momento do susto. Se outra pessoa cuida da criança com você, compartilhe este guia para que todos conheçam os mesmos primeiros passos.

Dúvidas urgentes não devem esperar resposta em comentários ou mensagens online: procure um serviço de saúde.

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